E entao eu te vejo tao lindo, tao serio e tao sereno. Voce dorme ou tenta dormir. E enquanto isso, voce continua tao lindo. E o melhor de tudo isso, é que esta em meu alcance, do meu lado, na mesma cama. As vezes voce abre o olho só para garantir que eu ainda esteja lá, talvez. E entao voce sorri, com sua covinha. E eu te acho mesmo lindo, e voce sabe que é lindo. Mas daí enquanto voce dorme, ou tenta dormir, eu te vejo lindo de um outro jeito, não é mais o mesmo meninao perdido, que sempre quer se sobresair só pra não ficar pra tras. É só um menino fragil, talvez possivel pra mim, ao alcance das minhas maos.
Daí eu lembro que a gente se conhece desde a epoca que eu tinha medo de beijar na boca, a gente se conhece a tanto tempo que a gente quase nunca conversa sobre a vida, porque a gente sabe, sabe como é a vida dentro de casa, e sabe por assuntos bagunçados como o pedaço do outro resto da vida vai andando. Nós dois parecemos intimos demais, e esse é só nosso segundo encontro depois de dois/tres anos. Mas idai? A gente sabe. A hora ta passando e daqui a pouco voce vai ter que ir atras da sua vida, e me deixar aqui te esperando na sua cama. Mas essa de estar na sua cama me deixa com menos medo de voce não voltar, alias, voce sempre volta não é?
Faziam quase tres anos que não nos viamos, ainda eramos garotos perdidos que tinham que voltar ate 00h em casa. Só que os anos se passavam , e a gente nunca se perdia totalmente ate quando nem sabiamos mais um do outro. Sempre rolava um flashback tanto pra mim quanto pra voce, e os dois se perguntavam “como sera que ele(a) ta?”. E como eu disse voce sempre volta, ou sempre dou um jeito de te achar. E a vida segue assim, porque tem que seguir assim. Somos tao iguais, e ao mesmo tempo tao diferentes. E quando eu olho pra voce eu sei que poderiamos nos gostar, que poderiamos tentar durar mais que dois ou tres encontros. Que poderiamos não ter que sumir mais dois anos pra tentar outra vez. Mas ao mesmo tempo, eu não sei de nada, e não saber de nada me deixa com tanto medo. O engraçado é que a gente se gosta, a gente se gosta porque se gostar é meio que obrigaçado da vida, a gente se atura, a gente se bate, se briga, se brinca, mas no fim da noite se ama. Um amor involuntario, com durabilidade, porque ele sempre acaba quando voce me deixa em casa e volta pra longe de mim. A questao é que enquanto eu te vejo dormindo, eu quase desisto da ideia de jogar com voce. Esse nosso jogo de não se envolver o suficiente pra ninguem sair machucado. É tanto tempo que a gente acha que sabe demais um do outro, e esquece de perguntar coisas tao simples. E eu esqueci de perguntar como voce realmente estava.
E depois desses tres anos perdidos, é a mesma historia de sempre, a gente se encontra, e a gente se perde porque se perder faz parte do jogo de não nos envolvermos demais. Porque no fundo temos medo de nos perder pra sempre, entao por vontade propria sempre nos esquecemos antes de nos odiarmos, ou nos amarmos demais a ponto de não saber o que fazer. Voce é canalha, eu sou pilantra e é assim que tentamos nos ver, no meio das intimidades que trocamos durante um dia inteiro. Voce vai atras da sua vida, e eu fico aqui tentando dormir na sua cama tao grande. Mas entao voce volta, e me abraça e diz que não via a hora de chegar em casa só pra me dar um abraço. E eu quase acredito que talvez poderiamos fazer isso sempre, essa do abraço, e do esperar. E entao voce faz meu almoço, e a gente conversa e come e ri e brinca como de costume, a gente parece namorado as vezes, mas o dificil é os dois acreditarem nisso. E entao passamos o dia, aproveitamos um do outro, nos cansamos, nos amamos com durabilidade, e entao eu paro para te olhar e eu sei que eu não vou conseguir jogar por muito tempo. Essa de não se envolver. E entao eu te digo “acho que acabou” e voce diz “fica queta Débora”. E sempre foi assim, e só pra não te perder pra sempre, eu decido que te deixar de novo é a melhor opçao. E te deixar me machuca um pouco, mas não tanto. Eu não quero ir levando esse nosso jogo e depois ter um sentimento de que perdemos muito tempo. Entao opto por ir embora de novo, na esperança de que daqui a dois anos ou tres, nos encontraremos de novo, sem más lembranças, só sorrisos e buracos de um jogo que nem eu e nem voce sabe se vai conseguir ate o final. Na esperança de que talvez daqui a dois ou tres anos, não vai existir tanto medo, nem tanta afobaçao, e eu vou poder te dizer muitas verdades, e voce tambem vai dividir suas decepçoes e suas esperas. Porque ate agora nós só estamos dividindo o que esta no nosso alcance, mas se conhecer é meio assustador e a gente sempre deixa pra depois do prazer e depois do prazer a gente esquece.
Mas é melhor assim, porque eu sei que voce sempre volta, e eu sempre te encontro. E é melhor partir com vontade de voltar, do que ter que ir com raiva. Vou levando nossas boas lembranças, sua camisa que fica enorme em mim guardada no meu armario, o seu cheiro que ficou nos meus pulsos e é o mesmo perfume do meu pai, a foto que tiramos. E a gente pode rir disso daqui alguns anos. Eu vou indo, com vontade de ficar e ver no que dá, mas eu sempre tive medo do sentimento que eu sinto por voce, e dessa coisa de nunca saber o que esperar. Esse misterio que fica entre nós dois sempre me assustou muito. E eu sei que poderiamos tentar, seria simples se decidicimos por não fazer esse jogo e tentar. Mas a gente nunca foi simples. Daqui a dois anos , se nos encontrarmos de novo, vou deitar na sua cama, com seu quarto reformado, com seu cheirinho de limpo e seu sorriso com covinhas, e talvez possamos contar um ao outro o que temos escondido todo esse tempo. E talvez eu possa te apresentar a Débora que tem um milhao de sonhos, que acredita muito no amor, e que tem uma vontade louca de deixar acontecer, uma Débora cheia de medos, inseguranças, mas de uma fé enorme e um coraçao sincero talvez. E entao voce vai ver que era só armadura, era só um ferro enorme e pesado que eu punha na minha frente, com jeito de não ligo pra nada, de não vou me envolver. E talvez voce finalmente consiga deixar de lado essa pose de menino que sabe demais, e deixe eu te ensinar algumas coisas, pra que voce possa me ensinar tudo que voce tem aprendido. E até me passa pela cabeça que se voce quisesse muito, se voce pelo menos tentasse gostar de mim, eu tambem poderia tentar, mas eu sei que no fundo fundo temos muito medo de tentar. E eu nem sei o que se passa na sua cabeça.
Enfim, voce me deixa em casa, eu te abraço e sei que talvez esse seja o ultimo abraço durante alguns anos. E eu te digo “não acabou , voce sabe né?” e entao voce ri e diz “eu sabia desde o começo”. E entao partimos, sem medo, um pra cada lado, e a vida segue, porque seguir faz parte. E um dia desses, talvez nos encontremos de novo, e talvez poderemos viver um amor que nem nós dois sabiamos que tinhamos essa capacidade. Talvez...sim, talvez não...

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